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Não dá pra escrever uma coisa que não existe.

Filho, quase cinco anos, refletindo sobre a escrita que ele recém conheceu e quer entender.

O NASCIMENTO DE JENIFER

Esperando as águas

Um barco, não sabia se estava partindo ou chegando...

No sonho da moça o barco pairava perto de um porto. Imagem estática: uma fotografia noturna, tingida pela lua vermelha.

Pintura que emanava cheiro quente de peixe e maresia de âncoras enferrujadas, cordas podres de velhos nós que se agarravam nas madeiras quase vivas de cracas. Renascidas a cada maré; pra dentro e pra fora das conchas... pra dentro e pra fora... Cortantes.
Pirata. Marinheiro. Sentado de costas no barco que oscilava com a marola, no súbito único movimento daquele quadro.
Com seus pés feitos raiz em terra, ela adivinhava seus olhos secos de sal, observando o eclipse, traçando os mapas no céu para a próxima partida.

Janela para o velho mundo

Ficção Cega na casa que não tinha paredes

Imagem
No dia que eu te encontrar de novo o mundo vai parar de rodar por uns instantes
Eu vou te olhar e vamos começar a dançar uma música que talvez nem esteja tocando
Eu vou deitar a cabeça no seu ombro, e, agarrada à sua mão, fechar os olhos
De olhos fechados vou cheirar o seu pescoço e sua barba e seu cabelo
E a música que não estava tocando vai emendar em outra e em outra
Sei que vou secar uma lágrima em sua blusa, disfarçadamente
E vou dizer, no pé do seu ouvido para que você nem ouça,
meu amor